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O ano era 2006. O mês, outubro. Desenvolvia-se a todo vapor a campanha em segundo turno das eleições para escolha do governador da Paraíba. Campanha pesada, disputada palmo a palmo pelos candidatos José Targino Maranhão e Cássio Cunha Lima.

Diversos motoboys visitaram os conjuntos habitacionais da periferia de João Pessoa e Bayeux. Eles recolhiam as contas de água, luz e telefone e devolviam tudo pago, desde que os moradores votassem em Cássio Cunha Lima (PSDB), o governador que disputava a reeleição. A aposentada Francisca Paulino de Araújo, 72 anos, é um dos vários eleitores que confirmaram em depoimento na Polícia Federal que votaram em Cássio em troca do pagamento de contas. “Eu estava precisando de dinheiro”, justificou Francisca na PF.

“Qualquer pobre tomaria a mesma atitude”, disse ela num inquérito policial que tramita sob segredo de Justiça.

A PF encontrou todos os recibos de contas pagas dos eleitores de Cássio em uma espécie de central do caixa 2 da campanha do governador, que funcionava no Edifício Concorde, em João Pessoa, no escritório do locador de carros e produtor de cachaça Olavo Cruz Lira. Um velho amigo de Cássio e locador dos carros para o governo da Paraíba. Durante a busca e apreensão, foram encontradas em nome da família da aposentada Francisca Paulino de Araújo as contas de água e luz já pagas, no valor total de R$ 77,32. Este foi o valor do voto em Cássio. O voto da dona-de-casa Maria do Rosário César Vieira foi vendido por R$ 38,84, pagamento de duas contas. O voto do cabo PM Eduardo Luiz de Lima em Cássio saiu mais caro: R$ 112,77. O desespero para comprar a eleição era tanto que no dia 27 de outubro a operadora de caixa da lotérica Videosorte, Marinalva de Oliveira, surpresa com o volume de contas pagas para eleitores de Cássio, perguntou ao motoboy Marcos Antônio França de Melo: “Menino, que tanta conta é esta?” Apressado para buscar novo carregamento, o motoboy ironizou: “A família era grande!”

Quando os fiscais do Tribunal Regional Eleitoral chegaram para checar a denúncia de compra de voto, o empresário Olavo Cruz jogou R$ 304 mil em dinheiro vivo pela janela do prédio, para tentar se livrar do flagrante. Outros R$ 102,8 mil foram apreendidos dentro do escritório de Olavo. Agora, os laudos da PF mostram que, junto com o dinheiro, estavam contas de água, luz e telefone quitadas de 45 eleitores de Cássio Cunha Lima. Tinha até título de eleitor. Também foi encontrada uma pistola tcheca CZ-83, calibre nove milímetros.

A PF recolheu ainda um recibo de doação de Olavo Cruz para a campanha da coligação Por Amor à Paraíba, no valor de R$ 400. Pior: o TRE encontrou no escritório de Olavo 238 recibos de abastecimento de combustível usados em favor da coligação liderada por Cássio, inclusive do carro do governador. No computador de Olavo, mais fraudes. Há uma “Relação de Veículos sem Contrato”, incluindo um Corolla para “Cássio” e o outro para “Ronaldo C. Lima Filho” (irmão do governador). A PF conclui: “Olavo Cruz, com a “ajuda” do Estado, comandava uma das células que tinha como objetivo a reeleição do atual governador.”

R$ 304 mil Foi o total que Olavo Cruz jogou pela janela para evitar flagrante.

O processo que investiga o senador Cássio Cunha Lima (PSDB) sobre o caso do “dinheiro voador”, também conhecido como “Caso Concorde”, teve nova movimentação ontem (29). A Procuradoria Geral da República (PGR) devolveu ao Supremo Tribunal Federal (STF) os autos que estavam com vistas ao representante do Ministério Público desde o dia 5 de dezembro de 2016.

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